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Uma crise de oferta

30 de setembro de 2021
 por
Guilherme Godoy
Uma crise de oferta

“Não espere por uma crise para descobrir o que é importante em sua vida.”
- Platão

A pandemia nos trouxe diversas consequências ingratas, inclusive econômicas. Os Bancos Centrais do mundo todo (onde possível) atuaram forte na política monetária, trazendo os juros para níveis baixíssimos, impulsionando a demanda de maneira abrupta. O Brasil, não foi diferente disto, atingindo o campo do juro real negativo. Hoje, é possível perceber, assim como atestado pelos principais BCs do mundo esta semana [2], que o choque causado pela pandemia tem origem na oferta e não na demanda. Se pararmos para pensar, tivemos economias, indústrias e serviços que na primeira onda da pandemia pararam por ao menos 2 ou 3 meses suas atividades (em sua totalidade ou parcialmente). Isto gerou um desequilíbrio na balança da oferta e demanda que até agora estamos buscando recuperar.

“A política monetária não pode resolver problemas de choque de oferta”
Bailey, Andrew. Presidente do BoE

Novamente, me parece que o livro de economia tenha falhado. Me pergunto, qual foi o real ganho de atividade para o Brasil ao reduzir os juros de 4% para 2%, ou será, que apenas jogou um pouco mais de gasolina na inflação. Lembro aqui, que juros baixos tendem a impulsionar o valor dos ativos reais e financeiros, impulsionado pela demanda e menor valor do dinheiro no tempo. A decisão entre poupar e consumir, restrita aos mais ricos naturalmente, traz outra consequência ingrata, o aumento da desigualdade. A injeção de liquidez nas economias, levou as principais bolsas do mundo a ganhar quase 100% em menos de 1 ano. Quem ganha com isso? Os mais ricos. Isto sem contar a educação, onde milhares de crianças evadiram de suas escolas, ou não foram capazes de acompanhar um ensino à distância por limitações econômicas. O Brasil? Um campeão nesse quesito, mas esse é um assunto para outro texto. O que destaco aqui, é que o choque de oferta também é futuro, uma redução da oferta de capital humano, já tão escasso no Brasil.

Hoje, vemos toda uma cadeia de suprimentos apertada, com poucos estoques ao redor do mundo, fruto desta injeção desenfreada de liquidez e do choque de oferta negativo causado pela pandemia. Independente do seu caráter transitório ou não, que Jerome Powell do Fed insiste em comentar dia após dia, a inflação cobra muito e principalmente dos mais pobres. O Brasil, um país de capacidade produtiva questionável e economia impulsionada pelo consumo das famílias, vive uma realidade ingrata de um IPCA próximo aos 10% e um IGP-M bem acima disto. A energia elétrica então, nem se fale. Temos uma bandeira tarifária em vigor que aumentou em R$142 / Mwh consumido. Número esse no mínimo assustador. Paulo Guedes ainda em seu extremo desconhecimento sobre o setor elétrico e no que isto representa para o bolso das pessoas destaca “Qual o problema de a energia ficar um pouco mais cara?”.

A falta de oferta neste caso, é de energia. É verdade sim, que tivemos o pior período úmido da história, mas será que erros de gestão não nos ajudaram à chegarmos nesta situação? Em 2014, passamos uma grave crise hídrica e em 2001 um racionamento. Me parece que pouco aprendemos. O modelo de precificação do uso de termelétricas ou hidrelétricas já não reflete a realidade do sistema há no mínimo 6 anos. Nesta semana, falamos em risco de apagão e racionamento, mas os preços do mercado futuro despencaram, com apenas um evento de chuva previsto, que pouco salvará o sistema (Como isso é possível?!). Ao mesmo tempo que o preço despenca, alguém ainda assim tem que pagar a conta, todos nós.

Preços futuros de energia no Brasil - R$/Mwh

Fonte: BBCCE

Em 2016, ano de preços de energia mais baixos, não paramos de pagar encargos referentes à Serviços de Sistema e desde então só queimamos água. No ano passado, não foi diferente. Atingimos níveis satisfatórios de reservatórios em boa parte do país no mês de Fevereiro, mas a gestão dos mesmos novamente deixou a desejar. Com o modelo indicando um despacho baixíssimo de termelétricas e subsídios como a bandeira verde ao longo de todo o segundo semestre, a consequência ingrata chegou, o preço a ser pago.

Como a frase do início bem destaca, não espere uma crise para descobrir o que é importante na sua vida. A agenda sustentável, muito linda no papel, não se encaixa tão bem no assunto energia. Podemos diversificar a matriz com as renováveis eólicas e fotovoltaicas (além das hidrelétricas), mas mesmo assim, sua intermitência e dependência do clima, não traz segurança. Agora, a térmica vilã volta a ser considerada na pauta e até mesmo novas hidrelétricas de reservatório. Este segundo, me parece no mínimo cômico.

A demanda por todos os produtos no mundo (inclusive energia elétrica), se mostrou mais forte do que todos esperavam. Muitas commodities passam hoje por uma crise de escassez, elevando os preços de maneira descontrolada. Do gás natural na Europa ao carvão na China (gráficos abaixo), os aumentos foram explosivos. Hoje, governos do hemisfério norte se mostram preocupados pela chegada do inverno, que aumentará o consumo de energia.

Thermal Coal Prices - China - CNY/metric ton

Tudo isso se explica pelo choque de oferta global, causado por uma gestão no mínimo questionável e de uma demanda impulsionada às custas de um trade-off com inflação. Vi poucos artigos abordarem se os estímulos econômicos não foram demasiados. Aproveito para utilizar de um gráfico apresentado pelo Alexandre Schwartsman em seu artigo recente.

Fonte: Autor com dados do IBGE e Tesouro Nacional

Como apresentado acima, a renda injetada pelos auxílios aumentou significativamente a “renda do trabalho” da população, elevando em muito mais do que o pré-pandemia. Naércio Menezes, apresenta em dados que cerca de 61% das famílias que receberam o auxílio emergencial não eram efetivamente pobres (claro que aqui o quesito “pobreza” é discutível, visto que os valores que consideram famílias pobres são arbitrários)[1]. Ou seja, será que precisávamos de tudo isso? Uma política fiscal e monetária sem precedentes, em um país com grande problema de produtividade e com histórico de inflação persistente...

"By a continuing process of inflation government can confiscate, secretly and unobserved, an important part of ther wealth of their citizens"
- John Maynard Keynes

"Inflation is taxation without legislation" 
- Milton Friedman

Como tudo na vida, a conta sempre chega, e agora não é diferente. Torcemos para que chova e ao menos o problema energético brasileiro seja resolvido, senão os desmembramentos desse panorama podem ser catastróficos. Por outro lado, não me parece que os efeitos inflacionários arrefecerão rapidamente, visto a situação global também vulnerável e a liquidez ainda abundante (porém menor). Para coroar todo o cenário, ainda teremos mais uma eleição em 2022, ditada pelo populismo (e usualmente medidas inflacionárias) e pelo recorrente fortalecimento do funcionalismo público. No fim do dia, o Brasil é uma eterna crise de oferta.

[1] https://cdpp.org.br/pt/2020/11/20/exageros-no-auxilio-emergencial/
[2] https://valor.globo.com/financas/noticia/2021/09/30/politica-monetaria-e-pouco-eficaz-contra-choque-de-oferta-dizem-bcs.ghtml

Categoria:
Guilherme Godoy

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